"Quando era criança minha mãe participava de um coral. Era um coral de uma igreja e um dia mamãe me convidou para assistir. Nunca na minha vida havia escutado algo tão belo. Não que a letra fosse bonita mas ao olhar nos olhos de cada um ou cada uma que compunha aquele corpo, parecia que haviam nascido apenas para aquilo. Tomada de imensa euforia me levantei do meu banquinho (que minha mãe havia posto perto de onde ela estava para que ficasse de olho em mim) e de pronto soltava a voz no mais alto som. O coral parou de cantar no mesmo minuto devido ao meu gesto inocente e totalmente desmedido e os que não haviam reparado foram brutalmente parados pelo maestro que com um gesto brusco ordenou a todos que se calassem. Havia algo em seus olhos que não poderia adivinhar. Na minha pequenês pensei que ele estava muito bravo e me recolhi ao meu banquinho novamente pensando ser a melhor postura diante
do acontecimento.
Então o maestro me encarou como que tentando desvendar-me. Minha mãe ao ver a situação se mexeu em direção ao maestro balbuciando algo com 'desculpas' e 'é minha filha'. O maestro no mesmo instante pediu que parasse de falar. Veio direto na minha direção, ajoelhou na minha frente e começou a chorar. Eu nunca havia visto alguém além de meu mano mais velho chorar (ele sempre chorava por tudo). Instantaneamente me senti envergonhada e saí correndo da igreja até a porta onde minha mãe veio me seguindo a passos largos até me alcançar.
- Você tem um dom minha filha. Ela me disse.
- E eu vou saber o que é dom? Respondi inocentemente.
- É quando alguém tem a habilidade para fazer algo sem nenhuma técnica.
A partir desse dia ia todos os dias com minha mãe ao coral. Me sentia bem e sempre ao final o maestro gostava de trocar umas palavrinhas comigo, como estava minha garganta, se doia ou nao
(eu nunca me senti mal cantando, em nenhum trecho de qualquer musica).
Assim fui crescendo e nosso coral foi participando de festivais. Ganhávamos muitos prêmios e me sentia feliz por fazer algo que gostava.
A primeira vez que fiz um solo foi algo muito especial. Todos pararam para me ouvir e quando terminei ouvi a maior salva de palmas que pude presenciar na minha vida. encontrei ali a resposta concreta do que seria um dom.
Na escola estava um dia no intervalo distraída cantando uma das músicas que mais gostava. Como não havia ninguém por perto comecei a cantá-la um pouco mais alto para ensaiar. Uns colegas que estavam passando me viram cantar, as pessoas sabiam que eu cantava... quando me pediam que cantasse as músicas que estavam nas rádios eu ia ouví-las apenas para fazê-las felizes e ouvir cantá-las juntamente comigo. Aqueles colegas chegaram perto sem eu perceber e de repente ouvi gargalhadas. Assustada, parei de cantar e olhei para eles, estavam realmente felizes me debochando. Fiquei chocada e perguntei o porque da atitude, eles me disseram que eu "cantava musiquinhas de igreja" e que por isso iriam contar a todos que era uma "madre".
Cheguei em casa muito triste, me tranquei no quarto, não queria mais ver ninguém. Os dias que se seguiram foram os piores do colégio, todos me olhavam e cochicavam entre si, agora tinha um novo apelido. As meninas que eram minhas "amigas" para não ficarem mal faladas deixaram de conversar comigo e me senti num abismo total. Desde aquele dia nunca mais cantei. Deixei de ir ao coral e nunca mais pensei em cantar alguma música por mais animada e entusiasmante que fosse.
Um dia na minha adolescência minha mãe recebeu um telefonema. Estava assustada e confusa pois um amigo seu estava muito mal no hospital e haviam pedido que sua mãe fosse para lá visitá-lo. A surpresa: eu deveria ir juntamente com ela, seu amigo lhe pedia. No caminho não entendia o porque de um amigo de mamãe estar pedindo que também eu fosse junto com ela. Talvez quisesse ver alguém jovem, ou uma menina... Ao entrar no quarto entendi. O amigo de mamãe era o maestro que há muito tempo estava doente. O quarto estava cheio e sua familia estava toda ali. Mamae foi cumprimentar-lhe mas seus olhos nao saiam de mim. Os médicos haviam dado poucas horas de vida a ele e seu último desejo foi dirigido a mim através de sua boca. Gostaria de me ouvir cantar a Ave Maria ali, naquele momento. Meu coração iniciou uma briga interna, pois fazia anos que não cantava e que não desejava fazê-lo, mas a uma pessoa que sempre me foi tão querida e que de certa forma também era meu amigo não poderia deixar de recusar um pedido. Afinal de contas na escola as colegas que mal conhecia me pediam que cantasse músicas e eu não iria cantar para alguém como o maestro?
Um minuto de concentração para lembrá-la, até eu estava na expectativa de me ouvir. Uma nota enfim deveria sair de minha boca.
Comecei a cantar. Ao término aquele maestro me olhou com os mesmos olhos e com a mesma expressão de quando eu tinha apenas poucos anos e tinha feito aquela cena na igreja. Saímos do quarto e poucos minutos depois o "nosso" maestro já estava descansando em paz para sempre.
Pouco depois sua familia saiu do quarto, fiquei com vergonha ao ver-lhes e me perguntei o porque de não ter ainda ido embora. De repente todos vieram me abraçar chorando e com esse ato entendia muito menos a situação, enfim devia consolar-lhes. A esposa do maestro olhou para mim e disse:
- Ele estava há anos querendo ouvir você cantar. E agora estou chorando não porque ele foi embora mas porque nunca na minha vida ouvi algo que me preenchesse o ser. No mesmo instante me lembrei do meu primeiro beijo, do meu primeiro namorado e do meu casamento. Você, menina, tem um dom que não pode esconder para si, pois já não mais o pertence. Não colocares em prática é o mesmo que jogar uma vida inteira fora, coisa que meu marido não o fez, jamais. Cante minha menina, cante!"
E na história daquele hospital nunca se ouviu algo tão belo.
Não deixe de colocar seus dons em comum. Nunca se sabe quando eles deixarão de ser seus, o momento presente é a dádiva e a oportunidade de colocá-lo em prática. Você tem muito mais dons do que pensa ter.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário